Há casas que se impõem ao terreno. Outras, mais raras, deixam-se conduzir por ele.
Nesta residência em Monte Verde, a implantação não busca dominar a encosta — antes, aceita sua inclinação como condição inaugural.

O ponto mais alto e íngreme do lote foi eleito não por conveniência construtiva, mas pela promessa de horizonte: dali, o vale se abre em continuidade, sem interrupções, sem concessões.

A geometria da casa abandona o rigor ortogonal para assumir um traçado que responde ao olhar. Como um dispositivo óptico, o volume se ajusta em desvios sutis, orientando-se para capturar diferentes enquadramentos da paisagem.


Cada face, cada abertura, é um gesto calibrado para ampliar o campo visual — norte, leste e oeste se tornam extensões do próprio interior, à altura das copas.


A topografia acentuada, com inclinação média de 45%, conduz à decisão estrutural: a casa se eleva sobre pilotis, tocando o solo com precisão mínima.

Essa estratégia preserva a leitura natural do terreno, mantém a vegetação existente e permite que o solo respire — ou mesmo se regenere.
Não há gesto de supressão, mas de convivência. A arquitetura se insere como intervalo entre as árvores.


O programa se organiza sob a lógica da fluidez. Os espaços internos dissolvem limites rígidos: sala, lareira e cozinha se articulam em um único ambiente, diferenciados apenas por desníveis sutis.


As varandas assumem o papel de mirantes, prolongando a experiência do interior para fora.
No nível superior, o mezanino em madeira — um plano contínuo — acolhe o repouso das crianças e hóspedes, reforçando a ideia de compartilhamento e abertura.


A materialidade segue a mesma contenção precisa. Tijolo aparente, argamassa rústica e cimento queimado compõem uma base silenciosa, quase tectônica.
Sobre ela, as cores primárias — vermelho, azul e amarelo — surgem como acentos, marcando esquadrias, guarda-corpos e planos verticais com intenção clara, sem excesso.
Em resposta ao clima de montanha, a construção adota paredes espessas, estruturadas com bloco cerâmico e revestidas por tijolos maciços, criando um colchão de ar que qualifica o desempenho térmico. A espessura não é apenas técnica — ela densifica a percepção do abrigo.


O pé-direito duplo amplia a verticalidade interna e sustenta o mezanino, permitindo que o espaço se organize em camadas visuais contínuas. As aberturas, generosas, não apenas iluminam: estendem o olhar para além dos limites construídos, reafirmando a posição elevada da casa como condição de projeto.

Aqui, a arquitetura não se encerra em si. Ela se constrói na tensão entre permanência e paisagem — um equilíbrio preciso entre o que se edifica e o que se preserva.
- Data : 1998
- Área total : 75,13 m²
- Área do terreno : 2.046,56 m²
- Localização : Monte Verde – MG
